AS PÉROLAS QUE NOS RESTAM
Em certo dia de novembro, fiz duas despesas iguais, inclusive nos centavos, em diferentes estabelecimentos comerciais. Aconselharam-me a jogar no bicho. Só então me dei conta de que tal experiência faltava em minha vida.
Dá para confiar num brasileiro que nunca comeu feijão nem jogou no bicho? As outras três coisas ditas fundamentais (ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro) passam ao segundo plano diante da trivial majestade das duas primeiras.
O jogo do bicho, que remonta aos tempos imperiais, teve um caráter ecológico avant la lettre. A pedagogia atual, que tanto enfatiza o sentido lúdico do aprendizado, poderia valer-se dele para transmitir noções de matemática (teoria dos conjuntos) e ambientalismo. Isso no ensino fundamental.
Na superior, então, nem se fala. Cursos de estatística, veterinária e cultura brasileira deviam começar com uma boa aula sobre o jogo do bicho. Como é que uma coisa tachada de ilegal pode resistir por tantas gerações, anos, décadas, viradas de século, ditaduras e democracias, senão por um surdo consenso nacional que traduz nossa mais íntima necessidade transgressiva?
Transgredi. E pior que isso: além de relatar o fato no blogue, também o fiz a minha filha adolescente. Foi quando passamos caminhando na frente de um boteco onde fazem jogo do bicho com mesinha na calçada, a céu aberto, nas barbas do profeta. Ela me pergunta, espantada:
< Mas isso não é proibido?
Fiquei na saia justa. Tentei explicar a minha filha que vivemos em um país no qual a faixa neutra que existe entre o legal e o ilegal é tão larga quanto o Rio Amazonas: de uma margem nem se enxerga a outra. Ninguém quis que fosse assim. Acabou sendo. É isto o que define a essência de uma cultura.
Se dei mau exemplo, não sei. Pode ter sido (se me perdoam a pretensão) uma lição de sociologia aplicada ao cotidiano. Também não sei se minha filha entendeu direito. Na idade dela, fiquei confuso quando me disseram que existia uma coisa chamada "ponto facultativo". Outra pérola nacional, tipo o jogo do bicho. Não nos restam muitas. Temos de andar pela rua atentos a essas poucas.
Escrito por Renato Modernell às 11h42
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ROLL OVER BEETHOVEN
Subo de novo a escadaria acarpetada do Cine Gemini para ver O segredo de Beethoven (Copying Beethoven), do polonês Agnieszka Holland. Recomendo-o a quem gosta de música. Pode não ser uma obra-prima, mas bota no chinelo muitos filmes de empulhação que aparecem cravejados de estrelinhas nos jornais.
O filme alterna belas seqüências e clichês românticos. No fim das contas, como Casablanca, tem o mérito de criar um clima (isto não é pouca coisa) e nele inserir uma história convincente.
Quando digo convincente, claro, não quero dizer real. A vida de Beethoven, pelo que se sabe, não teve o perfume de uma beldade como a copista e aprendiz Anna Holtz, interpretada por Diane Kruger. Uma pena. Poderia ter sido uma vida menos produtiva, mas mais prazerosa.
O maestro foi um desastre com as mulheres. Não era nem sombra do boa-pinta interpretado no filme por Ed Harris. A formidável biografia escrita por Maynard Solomon (Beethoven -- Vida e obra, Jorge Zahar Editor, 1987) mostra um homem que só se deu mal, exceto na música. Já o filme de Holland premia o compositor, em seu último ano de vida, 1824, com uma paixão tácita, inesperada, mas altamente inspiradora. Faz pensar no último suspiro de outro alemão genial. Wagner morreu em Veneza nos braços de uma amante que tinha idade para ser sua neta.
A imagem final de O segredo de Beethoven é para lá de piegas. Dá a impressão de ter sido imposta pelos produtores para garantir bilheteria. Em compensação, a longa cena do teatro lotado, quando o compositor, surdo, ajudado por Anna, realiza o milagre de reger sua Nona Sinfonia, é emocionante. Antológica, eu diria. Vale o ingresso.
Um diretor de menor brilho poderia ter reservado essa cena apoteótica para o fim do filme. Tiro e queda. Com ela, venderia a idéia confortante de que o talento acaba por calar a voz da mediocridade. Não é o que vemos na tela. Lá está um Beethoven solitário, abandonado pelo público, que já não consegue acompanhá-lo em seus vôos mais altos. Os jovens o consideram ultrapassado; os mais velhos, um doido.
O filme de Holland sugere que o gênio se assemelha ao profeta. Seu destino é repetir o sacrifício na cruz. Lembro-me agora de uma frase atribuída a Beethoven e que, imagino, Jesus Cristo assinaria embaixo: "Se queres acreditar em milagres, deves começar por fazê-los tu mesmo".
Escrito por Renato Modernell às 17h34
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O PAREDÃO BRANCO
Contemplo, a uns trinta metros, a face cega de outro prédio um pouco mais baixo que este. Um paredão liso, uniforme, revestido de pastilhas brancas. Parece uma enorme tela vertical à espera de imagens.
É improvável que Tomie Ohtake, que anos atrás criou painéis laterais para edifícios do centro, algum dia venha a se ocupar daquele espaço vazio ali fora. Tudo bem. Pior seria se ele caísse nas graças de publicitários ou pichadores. São Paulo está enfarruscada de cartazes e rabiscos. Vazio significa ocioso, disponível, na voracidade enfermiça da nossa época.
A recente proibição de outdoors, em São Paulo, pouco contribui para sanear um panorama já tão deteriorado. Como outras grandes cidades do mundo, esta também tende ao caos urbanístico e arquitetônico, para não falar da miséria humana. Mesmo que a nova lei pegue, jamais teremos aqui algo que de leve se assemelhe à ilha espanhola onde Saramago vive, Lanzarote, na qual os outdoors são proibidos.
O sensato Ângelo Scannapieco acha que, em vez de erradicar os anúncios, deviam apenas restringi-los a zonas comerciais e corredores de tráfego. Já o contundente Leo Vázquez propõe que o poder público combata a poluição visual ampliando o leque de acordos secretos que, acredita ele, já firmou com o crime organizado. Neste caso, seria para estimular bandos de pichadores a enxovalhar todos os cartazes e outdoors que encontrarem pela frente, em vez de borrar muros, fachadas e placas de trânsito.
< Se querem grandes emoções, que desafiem a turma da propaganda, seus primos ricos.
Não vou entrar nessa pendenga. Digo apenas que, a meu ver, a poluição visual não é só questão estética, mas também de saúde pública. Quando me mudei para cá, eu detestava o paredão branco do fundo do outro prédio. Hoje considero-o um bálsamo para os olhos. Sinto até falta dele quando estou fora de casa. Em São Paulo, o vazio é uma raridade.
Torço para que o paredão branco continue incólume. Ele não seria melhor nem com Gisele Bündchen em sua mais ínfima lingerie. Dispenso até um belo painel de Tomie Ohtake. Os zen-budistas celebram o vazio. Só ele nos ensina a separar alhos e bugalhos.
Escrito por Renato Modernell às 11h10
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MINHAS FÉRIAS
"Minhas férias" era o título da redação na volta às aulas, no tempo das galochas. Resgato-o em 2007, ao retomar meu blogue.
Minhas férias? Férias, para mim, é quando não preciso decidir nada, nem marca de guaraná. Mas a vida é ardilosa. Já em férias, peguei carona para o litoral com uma moça que, prestes a deixar o país, ofereceu-me seu carro a bom preço. Era pegar ou largar. Ótima oportunidade: o tipo de carro que eu escolheria se quisesse um. Mas não quero, pensei. Bem, se não quero, por que não esqueci o assunto?
A palavra automóvel promete autonomia e mobilidade: o sonho de todo adolescente. Também o meu, quando colecionava revistas especializadas em carros e cultuava os azes das pistas como Jim Clark, Bird Clemente e Breno Fornari. Mesmo quando os troquei por astros da música, continuei ligado ao mundo dos automóveis: as inovações mecânicas, a sedução do design, o ronco do motor, o prazer da aceleração, o desafio das grandes jornadas ao volante.
Hoje mal me reconheço nesta indiferença pelos automóveis, que se tornaram geringonças anônimas. Trocaria a melhor máquina do mundo pela chance de viver numa cidade de transporte público excelente ou numa ilha onde jamais se ouviu uma buzina.
Caso decidisse comprar o carro, ele logo me cobraria outras decisões a que custei a me desabituar, como quem larga o cigarro. Ter carro é ter de decidir se é o momento de ultrapassar; se é o caso de arriscar um novo trajeto; se o guardador de carros é confiável; se compensa parcelar o seguro; se um ruído na roda merece atenção; se vale a pena girar no quarteirão à espreita de uma vaga; se há guarda por perto etc. É como se a gente jamais entrasse em férias.
Como caroneiro, podemos olhar para qualquer direção. Ou fechar os olhos. Ganhamos a liberdade de pensar, enquanto nos deslocamos, em qualquer coisa que nada tenha a ver com o deslocamento em si. Isto, sim, é entrar em férias. E mais: andar de carona estimula a sociabilidade. Conversa vai, conversa vem, até nos surgem oportunidades inesperadas. Mesmo essa de comprar um carro, como aconteceu comigo.
Por estar em férias, nada decidi. Antes, abri mão da preferência no negócio. A esta altura, um amigo já deve decidido ficar com o carro da moça. Para mim, é tarde demais. Que alívio! Isto quer dizer que continuo em férias.
Escrito por Renato Modernell às 16h36
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O MERCADO E O MOSTEIRO
Não aconselho ninguém a ir ao Mercadão na época do Natal. Mas precisei ir. Na volta, para me recobrar da subida da Ladeira Porto Geral, com duas sacolas, fiz uma pausa no Mosteiro de São Bento.
Templos lembram cinemas. A penumbra é quase escuridão; a luz ilumina só o que interessa; e as pessoas reverenciam algo que está num plano muito superior ao cotidiano. O que nos salva é a possibilidade de sonhar.
Em um altar lateral, a figura esbelta de Jesus Cristo irrompe das sombras. Um príncipe, se diria. Mas não parece plausível que Ele, de origem humilde, possa ter-se apresentado aos olhos de seus contemporâneos daquele jeito, como quem desfila no Shopping Iguatemi. Tampouco é crível que o tenham crucificado como aparece na nave central. O corpo não teria sustentação. E as cruzes para os suplícios eram diferentes.
Mas o que importa isso? Nada. É como no cinema. O que vale é o impacto. Dentro do mosteiro, com os braços doloridos pelo peso das sacolas, ousei imaginar o esforço daquele homem ao carregar sua própria cruz. Quanto pesaria ela? Quantas sacolas de mercado ou de shopping? Madeira é outra história, bem sabemos.
E a madeira dura e densa foi a sina de Cristo do início ao fim. A madeira da manjedoura; a madeira do ofício de seu pai, que Ele trocou pelo destino de profeta; e a madeira da cruz, no desfecho trágico.
A mensagem cristã hoje pode até parecer simples, mas deve ter sido desafiadora para os homens de dois milênios atrás. Sem o respaldo de uma doutrina sistematizada, como é que aqueles plebeus palestinos podiam apostar em que o sacrifício do mestre, ao contrário dos ladrões que o acompanhavam no Calvário, tinha um significado oculto? Seria como impor a um feirante de hoje, em vez da lição da maçã de Newton, um princípio da física quântica.
O cristianismo triunfou porque a imaginação é mais importante que o conhecimento. Einstein disse isso. Mas poderia ter sido Cristo. Tudo fica muito claro quando se entra na penumbra do Mosteiro de São Bento. Recomendo. Mas não esqueçam: evitem o Mercadão.
Escrito por Renato Modernell às 08h43
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EM LOUVOR DO VERMELHO
Todas as artes aspiram à condição da música, que é pura forma. Esta idéia é atribuída tanto a Schopenhauer quanto ao crítico Walter Pater. Calma: não pretendo discutir isto aqui. Hoje é domingo. Mas permitam-me uma paródia: todas as cores, neste 17 de dezembro, aspiram à condição do vermelho.
Vermelhos são o sangue e o mercurocromo. O nariz do palhaço, o barrete do Saci, a capa do toureiro, a túnica do Dalai Lama, o manto do papa, a indumentária do Papai Noel. Vermelhos são o que existe e o que não existe. A língua dos dragões, os ônibus de Londres.
A fraternidade é vermelha, como no filme de Kieslowski. E vermelha é a fachada do Cine Belas Artes. Seus extintores são vermelhos, como a brasa do cigarro e o aviso de não fumar. A tentação e a contenção são vermelhas.
Supõe-se que o batom na boca das mulheres é para sugerir o vermelho de outros lábios menos expostos. Não sei. Mas sei que o centro da Terra é vermelho. Gagarin só a viu por fora, quando disse algo diferente, em 1961. A mesma leitura apressada nos faz descrever os olhos pela cor da íris. Lá dentro, todos são sempre vermelhos, como provam os flashes.
O poder é vermelho. Não só na Praça Vermelha ou no Livro Vermelho. Vermelho já era a cor do Império Romano. Mas o heroísmo também é vermelho. Lembrem-se das camisas dos garibaldinos, dos lenços dos maragatos.
O desafio é vermelho. Durante séculos foi difícil tingir tecidos nessa cor. Obtê-la no vidro, quase um milagre. Por isso a elegância é vermelha. Pensem na Ferrari, no Campari. A Coca-Cola é preta, mas se anuncia em vermelho. Já a melancia se dissimula. O morango e o tomate ostentam sua cor. A coragem é vermelha.
A vigilância também. Luzinhas vermelhas piscam nas asas dos aviões; brilham no topo dos prédios, nos aparelhos eletrônicos. As luzes almejam à condição do rubi. A nobreza é vermelha.
Vermelha e, às vezes, simples. Reparem nas bandeiras que dispensam penduricalhos: as do Japão, do Canadá, da Suíça, de Minas Gerais. Nelas, a cor supera a forma. O vermelho lhes basta.
Todos os dias da semana aspiram à condição do domingo, que vibra em vermelho no calendário. E todos os domingos aspiram à condição deste 17 de dezembro de 2006. O resto vocês sabem.
Escrito por Renato Modernell às 18h27
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CHIMARRÃO EM TÓQUIO
A padaria da esquina, claro, tem seus especialistas em futebol. Eles acham que o Inter vai levar uma lavada do Barcelona. O chapeiro, são-paulino, prepara-se para ver um show de bola do time de Ronaldinho.
Veremos, dizia Onório Lemos. Um velho ditado do Sul. Mesmo do lado de fora do balcão da padaria, sem a autoridade do avental, permito-me recordar o clichê que diz que o futebol é uma caixinha de surpresas. Nos últimos nacionais, o Inter, duas vezes vice, perdeu jogos imperdíveis mas quase sempre ganhou dos líderes. A velha sina: "Grande contra os grandes, pequeno contra os pequenos".
Receio mais um despretensioso time neozelandês ou africano, no primeiro jogo, que a possível final contra a máquina trituradora do Barça. Só não disse isso no balcão da padaria para não ser alvo da chacota dos especialistas.
Estou otimista até por conta dos percalços que o Inter vem tendo. Primeiro, a lesão de última hora que eliminou Rentería do mundial interclubes. Depois, a complicada viagem a Tóquio, que levou 42 horas. O atraso em São Paulo e a perda da conexão em Paris comprometeram o minucioso plano traçado pela nutricionista e o preparador físico para abrandar os efeitos do jet lag.
Essa maratona foi a primeira provação da jornada. Em 1970, quando o Colorado mal despontava no plano nacional, um dirigente vaticinou: "O Internacional só será de fato um grande time quando desembarcar em Paris, perder o trem para Marselha, dormir nos bancos da estação, chegar lá em cima da hora, se fardar às pressas, entrar em campo, e ganhar o jogo. Assim como fez o Santos, não sei quantas vezes. É o que falta ao Inter e sabemos muito bem disso".
Afinal, 36 anos depois, o Colorado teve chance de viver essa fase necessária de seu batismo de fogo: as complicações de uma viagem. E os problemas continuam. O inverno japonês dificulta os treinos. Imagino os jogadores trancados no hotel, tomando mate. Isso me deixa ainda mais otimista. Uma boa roda de chimarrão, em Tóquio, talvez seja mais produtiva e alvissareira do que o contato direto com a bola.
Isso eu também não disse para o pessoal da padaria. Lá eles só entendem de café.
Escrito por Renato Modernell às 08h05
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SOBRE A PROFISSÃO DE JORNALISTA
Ontem participei do 2º Encontro Paulista de Professores de Jornalismo, na Universidade Mackenzie, onde dou aulas. A velha discussão sobre a obrigatoriedade ou não do diploma para se exercer a profissão foi um dos assuntos que vieram à baila, ou "à balela", como Zagallo disse uma vez.
Não vou discutir os aspectos políticos e corporativos da questão. Seria algo muito extenso. Não caberia aqui. Além disso, algo diferente me passou pela cabeça enquanto eu ouvia os palestrantes de ontem.
Essa discussão interminável (diploma ou não?) que sobressalta toda uma categoria profissional tem origem na própria essência deste nosso ofício de narradores do cotidiano. O jornalista está a meio caminho entre o técnico e o artista. Tem de ter um pouco dos dois. Mas em que dosagem? Eis a questão. Se conseguíssemos responder a essa pergunta, lançaríamos novas luzes sobre esse assunto de diploma e faculdade.
Acho que pouca gente se disporia a embarcar num avião se soubesse que o piloto não fez nenhum curso regular, embora seja homem de grande talento natural. Você deixaria um autodidata lhe extrair um rim ou um dente de siso? Claro que não. Isso já seria, por si só, falta de siso. Mas, creio eu, você jamais recusaria ir a um concerto só porque o artista não tem diploma de conservatório nem registro na Ordem dos Músicos.
Pois então. Onde se situa o jornalista numa imaginária escala de zero a dez, que vai do músico ao piloto de avião? Se somos democratas (somos?), seria interessante ouvir a opinião de quem se vale dos nossos serviços. Ou seja, o público. Os não-jornalistas. Se nós próprios decidimos quem somos e, portanto, o que merecemos, podemos até sair lucrando no curto prazo, claro. Mas faremos o chamado quarto poder, já tão contestado pelas pessoas de siso, parecer-se cada vez mais com os outros três. E aí eu já não sei se vale a pena.
Escrito por Renato Modernell às 08h35
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ANDARE NELLO STESSO POSTO
Em um artigo de rara perspicácia, intitulado Andare nello stesso posto ("ir ao mesmo lugar"), Umberto Eco certa vez disse que jamais nos movemos tanto quanto agora, mas para lugares que cada vez mais se parecem entre si. Observa que já não viajamos para o desconhecido, como faziam nossos ancestrais, mas para confirmar imagens vistas em casa, na tela da televisão. Nas grandes cidades, os mesmos bancos, redes de fast-food e lojas de grandes estilistas.
De fato, resta pouca margem de manobra para quem anseia por experiências pessoais que ultrapassem o turismo. Porém não foi apenas o mundo externo que deixou de nos reservar surpresas. Nosso olhar também se estreitou.
O uso intenso do automóvel colaborou para isso. Dirigir é um conjunto de procedimentos banais disfarçados pela ilusória sensação de liberdade. Um congestionamento de tráfego faz Roma ser igual a Xangai. O pára-brisa do carro é uma viseira que vai endurecendo com o passar dos anos. Se andamos a pé, criando novos roteiros por vias capilares, bordando o cotidiano, mesmo as ruas de uma cidade caótica e fuliginosa como São Paulo podem nos surpreender.
David Sim, que trabalha na sede dinamarquesa do escritório de urbanismo Gehl Architects, sustenta que é possível fazer refulgir o centro de São Paulo (Estadão, 25/11/06, p. C 10). Por que não damos um voto de confiança a esse jovem arquiteto escocês, inspirados em seu assertivo sobrenome? Ele defende o conceito "dos cinco quilômetros por hora e dos três metros de altura", isto é, um ambiente urbano pensado para quem anda a pé, não de carro.
Caminhando, podemos visitar cidades invisíveis (para o motorista) dentro de uma mesma cidade, mesmo que seja a nossa. Não desejo satanizar o automóvel, de modo algum. Agora não tenho, mas já tive oito, em diferentes épocas. Sei que eles, como cavalos teimosos, tendem a repetir caminhos. E assim, onde quer que estejamos, em Roma, Xangai ou São Paulo, estamos sempre nello stesso posto.
Escrito por Renato Modernell às 08h36
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A VISITA DE LEO VÁZQUEZ
Leo Vázquez apareceu sem avisar. O porteiro não o conhecia. Em vez de despistá-lo com uma desculpa, interfonou-me. Só me restou deixar o visitante subir. Leo chegou com uma conversa de que deviam acabar com o feriado da próxima segunda-feira, o tal Dia da Consciência Negra, e em vez dele instituir o Dia da Consciência Pesada.
< Assim expiaríamos a culpa pelas patifarias perpetradas, ao longo da história, contra todos os grupos e etnias, não apenas os negros.
Eu estava com sono. Mas tive de ouvi-lo falar sobre os índios tamoios, que os invasores lusos dizimaram por meio de roupas infectadas com o vírus da gripe; dos japoneses, imigrantes engambelados e escravizados nas terras roxas do oeste paulista; dos italianos perseguidos durante a guerra, mesmo não sendo fascistas, apenas italianos.
Leo foi se empolgando. Fiz mal em lhe oferecer vinho. Disse que, se fosse presidente, acabaria não só com o Dia da Consciência Negra, mas também com os demais feriados.
> Você ficou louco?
Ele explicou: computaria o tempo total dos feriados e o descontaria, em porções iguais, de todos os dias úteis do ano. Assim reduziria a jornada de trabalho a um patamar civilizado, como no hemisfério norte.
< Qualquer um teria chance de chegar em casa e regar as plantas, cochilar, fornicar, antes de os filhos voltarem da escola.
Tais assuntos jamais serão levados a plenário, é evidente. Leo Vázquez jamais será um parlamentar, no que depender de mim. Para cargo executivo, então, não tem a menor chance. Acreditem, ele acha que os homens públicos, como os operários, também deviam bater ponto. O negócio dele é me aporrinhar, já viram.
Mas eu não quis ser grosseiro quando o acompanhei ao térreo. No elevador, perguntei se, em seu governo, além de trocar o Dia da Consciência Negra pelo Dia da Consciência Pesada, ele também ousaria acabar, por exemplo, com a Parada Gay.
< Não, mas por uma questão de justiça criaria a Parada Hétero. E seriam ambas no Sambódromo.
Passava de meia-noite quando consegui me livrar de Leo Vázquez. Agora o porteiro já o conhece. Vocês também. Na próxima vez, vou dizer que não estou em casa.
Escrito por Renato Modernell às 20h21
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SESSÃO DUPLA NO GEMINI
Talvez um dia eu descubra por que, às vezes, determinado filme permanece na memória tão lincado ao cinema onde foi visto. Assim como certas pessoas são, para nós, uma lembrança indissociável de uma época, um lugar, uma certa atmosfera.
Há dias fui ver Boa Vida Delivery, do argentino Leonardo di Cesare, no Cine Gemini, na Avenida Paulista. O mesmo tema, a nostalgia, unia a história projetada na tela ao ambiente real, ou seja, a sala de projeção. Cinema e filme pareciam feitos um para outro, como café e bolo de fubá.
O filme, de 2004, é um dos melhores da boa safra de argentinos que têm sido exibidos em São Paulo nos últimos anos. Produções baratas, mas ancoradas em roteiros fortes e atores firmes. Histórias urbanas e vívidas, de gente comum, tendo como pano de fundo a patética decadência de um país, a Argentina, que já foi o salão de honra da América Latina.
O Gemini evoca a época do chamado Milagre Brasileiro, que sustentou a ditadura com cifras econômicas jamais reeditadas. Ele é espaçoso, retumbante. O farto carpete estampado em laranja faz lembrar as gravatas dos executivos e as pinturas dos carros nos tempos cinzentos do regime militar. Sua escadaria sem fim parece dar acesso a um templo (o cinema era isso para os antigos cinéfilos) onde se ouve uma orquestração suave de Love is a many splendored thing, a mesma música ambiente que se ouvia nos cinemas da minha cidade, no tempo das galochas.
Anacrônico, o Gemini tem tudo para se transformar, em breve, em uma igreja evangélica, como me disseram que vai acontecer com o recém-desativado Cine Vitrine, na Augusta. Outra pérola cai no ralo. Espero estar enganado quanto ao Gemini. Este ano vi ótimos filmes lá. Mas por ter ido tantas vezes observei indícios da insustentabilidade.
Para começar, o Gemini não fica em shopping, como agrada aos jovens de hoje, e sim numa galeria. Não projeta anúncios; o filme entra direto depois do trailer. É um sabor de antigamente. Nem no Glória nem no Sete, em Rio Grande, éramos assim metralhados por imagens publicitárias. O toque do gongo impunha uma aura de sacralidade, pacto pagão que os reclames sabiam respeitar.
O Gemini ainda tem um pouco disso. Talvez seja prematuro demais, ou pessimista, supor que esse fascínio secreto é o canto-do-cisne. Pode ser que algum empresário, antes do pastor, se aperceba a tempo do Gemini, e o salve, como se salva uma relíquia. Assim os jovens ficarão sabendo um pouco como eram os anos setenta.
Qualquer filme que tenha como força propulsora a evocação (é o caso de Boa Vida Delivery) encontrará no Gemini um local propício, uma extensão de si próprio. A entrada podia custar o dobro, já que é sessão dupla. No entanto custa menos que a de qualquer outro cinema da Paulista, onde o filme só passa na tela.
Escrito por Renato Modernell às 22h54
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NO RECESSO ABENÇOADO DO LAR
Pois cá estou, no feriadão chuvoso, às voltas com um frila que decerto não é o trabalho mais emocionante que fiz na vida. Mas qualquer pessoa sabe (nem é preciso se chamar Fernando) que tudo vale a pena, quando a poupança é pequena.
Tenho em mãos um material que fala de dezenas de empresas brasileiras que mantêm projetos humanitários ou, como se diz hoje, de inclusão social. Ou seja, fazem aquilo que se poderia esperar do governo na próxima encarnação.
Algo me chamou a atenção. Uma dessas empresas anuncia que concede licença-maternidade de seis meses, para a mãe, e de dois meses, para o pai, mesmo em caso de adoção, e o benefício é extensivo a casais homossexuais em união estável. Aleluia! De cara, pareceu-me um avanço formidável em termos de concepção moral. Mas depois fiquei com a pulga atrás da orelha. "União estável" não é uma expressão capciosa?
O que mais vejo por aí são desuniões estáveis ou uniões instáveis. As coisas são meio assim, agora. As próprias empresas não se cansam de repetir estribilhos corporativos como "um mundo em rápida transformação", "cenário altamente competitivo", "desafios crescentes do mercado" e cousas e lousas. Como esperar uniões estáveis numa época convulsionada?
Talvez um dia inventem mecanismos de avaliação da estabilidade das uniões conjugais, como hoje existem às pencas em âmbito profissional. Imaginem uma ISO 99.999 aplicável à vida privada, capaz de monitorar, em tempo real, parâmetros essenciais do casamento como seu clima organizacional; a disposição proativa de seus membros; a geração de oportunidades; os índices de turnover e absenteísmo; e, claro, as boas práticas de gestão e a auto-sustentabilidade, como se faria numa fábrica de celulose.
Lamento, não vai ser fácil achar muita estabilidade na vida real. Nem mesmo no recesso abençoado do lar, como diria minha tia. O ser humano é a um só tempo afetuoso e competitivo, gregário e beligerante. Nem as empresas, com seus especialistas, conseguem conter esse ímpeto primal. Claro, conheço algumas com belos projetos sociais e ambientais. Transparentes, estáveis, se diria. Sua imagem pública se assemelha a um lago de águas cristalinas. Só que lá dentro é um pega-pra-capar.
Escrito por Renato Modernell às 18h36
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O NOVO BARROCO TECNOCRÁTICO
O motorista do táxi se queixa de que nos debates da última eleição os candidatos vomitaram números que nada significam para as pessoas comuns. É verdade. Gostei de ver a lucidez dele. A maioria não se dá conta de que os políticos soltam essa numerália como fogos de artifício. E rebaixam um debate de idéias à categoria de gincana.
No passado, faziam isso com palavras. Citações, floreios verbais, frases de efeito, termos complicados, expressões latinas. No hotel do meu pai se hospedava um senhor que colecionava discursos de Rui Barbosa e os recitava de cor, no avarandado, para os outros veranistas.
Durante dois ou três séculos o Brasil foi o país dos bacharéis. A verborragia imperava. Hoje é o país dos tecnocratas. A numerália impera. Porém ambas as coisas, palavras e números, se prestam à arte do ilusionismo. Muitos brasileiros ainda tendem a crer que um sujeito sabe do que está falando quando não entendem o que ele diz, ou o que significam os números que ele traz.
O mito da nossa época diz que as cifras são insofismáveis. Representariam a Verdade, como as figuras de linguagem na época de Rui Barbosa. Vivemos um tempo ao qual poderíamos denominar de barroco tecnocrático: argumentos simplórios, mas ornamentados com números.
O jornalismo agora é todo cheio de janelinhas e penduricalhos gráficos que realçam dados, tabelas, projeções, mesmo se o texto trata de estrelas, tucanos, abobrinhas ou chuchus. E nos sentimos poetas no dia em que conseguimos entender o que é superávit primário. Pois até a Academia Brasileira de Letras já se poderia chamar Academia Brasileira de Números. O novo membro é escolhido por um critério que privilegia a quantidade, seja de livros vendidos, de dinheiro no banco ou de amigos influentes -- embora isso não impeça ninguém, seja dito, de ser um gênio da escrita.
Os tempos mudaram. Idolatramos os números, e ponto. Pouco importa que eles sejam tão manipuláveis quanto adjetivos ou advérbios. E que nos sejam servidos, ou enfiados goela abaixo, numa ordem de grandeza que nada tem a ver com a vida real. Mas cuidado: o motorista do táxi já sacou isso.
Escrito por Renato Modernell às 17h22
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A FERRADURA E O PRISMA
Numa campanha eleitoral, é normal que mesmo pessoas brilhantes se empenhem em demonstrar a idéia falaciosa de que os bons estão de um lado, e os maus, de outro. Surpreende-me, no entanto, que ainda se fale tanto em "esquerda" e "direita", embora deva admitir que, por força do hábito, às vezes também recaio nessas expressões pré-cambrianas. Não acredito mais nisso.
Na juventude eu imaginava o espectro político como aquela ferradura que tenho sobre a escrivaninha, como peso para papéis, e que é dotada de três furos em cada extremidade. Situava as pessoas e grupos conforme sua proximidade aos chamados interesses das elites ou das causas populares. Depois vi que a história é outra.
No século XIX, o império seria "a direita" no Brasil. Mas foi o imperador quem bancou a experiência anarquista da Colônia Cecília, no Paraná, onde houve até amor livre. A república (a modernidade) a combateu. E destruiu.
Hoje, um homem "de esquerda" (a modernidade?) seria possivelmente favorável a cotas raciais na universidade e contrário, digamos, à quebra da estabilidade do funcionalismo público. Causas humanitárias, à primeira vista, mas que a longo prazo perpetuam castas privilegiadas e respaldam a mediocridade.
Já não penso na política como na ferradura imóvel sobre a escrivaninha. A política é bem mais o prisma de vidro, cheio d'água, que pende de um fio ali fora da janela. Suas quinas e arestas representam as alianças e coligações partidárias. O que seria "esquerda" ou "direita" naquele prisma? Ele gira com o vento. Projeta belas manchas coloridas nas paredes internas. Porém elas são mais fugazes que as nuvens.
Escrito por Renato Modernell às 14h11
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ASSIM TECEMOS O FUTURO
Volto à região onde, há sete anos, vim fazer uma reportagem sobre um fenômeno curioso. Aqui não falta trabalho às mulheres, mas os homens vivem de bicos desde que as siderúrgicas fecharam. Muitos hoje cuidam da casa e dos filhos enquanto as esposas saem para trabalhar nas tecelagens. Houve inversão de papéis.
Meu amigo pediatra recebe no consultório levas de pais sozinhos com crianças de colo, mas poucas mães. Ele garante que é mais fácil lidar com eles, menos ansiosos, mais efetivos ao descrever os sintomas e aplicar o tratamento.
Esse mesmo amigo anos atrás se envolveu na política local, mas logo pulou fora, ressabiado e também pressionado por sua mulher. Agora, separados, ela é quem resolveu entrar nos meandros da política partidária.
Essa nova inversão confirma o que tenho observado em São Paulo. A fumaça ácida e espessa que polui os bares se deve em grande parte às baforadas das mulheres. Antes não era assim. No hotel do meu pai, no Sul, pouquíssimas mulheres fumavam. E eram olhadas de revés pelas que faziam tricô.
Sei de onde viemos, não para onde vamos. Outro amigo se queixa de que as mulheres, no trânsito, cada vez mais dão fechadas, forçam ultrapassagens, xingam pesado. Estão, por assim dizer, mais participativas. Meses atrás, eu próprio vi na rua um carro arrancar cantando pneus. Essa ruidosa fricção no asfalto, na mitologia masculina, sempre me pareceu algo tão grosseiro quanto coçar, em público, aquela região do corpo que não vou nomear. Surpresa: ao volante, uma mulher. Nunca pensei que fosse ver aquilo.
Consola-me apenas saber que ao menos algumas delas estão descobrindo o que existe de sublime no jogo de botões. Porém, de modo mais amplo, não sei se as mulheres ganham ou perdem ao entrar com tudo no território estressante que ainda ontem pertencia aos homens: tabaco, política, carteira assinada, fechadas no trânsito.
A inversão de papéis pode levar nossa civilização ao impasse. Trocar pneu é fácil, mas não fazer tricô. Crochê, pior ainda. E nós, homens, jamais faremos cerzidos invisíveis.
Escrito por Renato Modernell às 20h55
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